Monday, July 13, 2009

POEIRA VOLTOU

Poeira, o chefe do posto
Voltou
Mudou de nacionalidade
Cor e rosto
E voltou com sua brutalidade
Mudou de nacionalidade e regressou!

Poeira voltou
Para kuatar os filhos dos outros
Para kuatar os filhos dos negros
Mudou de rosto
E regressou
Mudou de rosto e regressou para nosso desgosto!

Poeira voltou
E anda pelos musseques do Rangel, Sambizanga, Samba…
São Paulo, Baixa, Mutamba…
Poeira regressou
Para novamente kuatar os filhos dos outros
Para novamente kuatar os filhos dos negros!

E andam muitos, um, dois, três, quatro Poeiras…
Andam em carrinhas pela cidade
Atrás das vendedoras
Atrás das zungueiras, com brutalidade
Poeira voltou
E cabeças a abanarem de desgosto, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira voltou
E desce da carrinha armado a correr
Desce da carrinha armado e toca a bater
Porrada na zungueira
Porrada na vendedora
E mãos na cabeça em lamentos, aiué, aiué, Poeira regressou!

Poeira voltou
Recebe o negócio das zungueiras
Bate nas vendedoras
E corrida com os ambulantes
Poeira voltou, kibutos apressados em cabeças descontentes
E pensamentos revoltados, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira voltou
Kibutos espalhados no passeio
Ponta-pés impiedosos no negócio da vendedora
Ponta-pés no ganha-pão da zungueira
Poeira voltou, ponta-pés implacáveis no suor alheio
E corações ressentidos, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira, o colono que kuatava os filhos dos outros
O colono que kuatava os filhos dos negros
Mudou de cor e voltou
Mudou de nacionalidade e regressou
Poeira voltou e bate na vendedora
Poeira voltou e recebe o negócio da zungueira!

Poeira, o chefe do posto
Mudou de nome e nacionalidade e voltou com outra cor e outro rosto!


Kuatar: agarrar, prender
Zungueira: vendedoura ambulante
Kibutos: coisas, pertences

Décio Bettencourt Mateus

In “Os Meus Pés Descalços”

Friday, May 29, 2009

DIFERENCIAÇÕES

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
Alguém ri,
A vida é bela e para ele sorri
Montes de dinheiro são contados
Montes de dinheiro serão depositados

Enquanto isto, lá fora
Gente que dorme ao relento
Gente que não tem tecto
Prepara-se para andar à porrada
Prepara-se para andar à bordoada
Vai haver pancadaria à qualquer altura

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
A alegria é visível,
A cumplicidade é inviolável
Mais um carro de luxo comprado
E mais outro bem (ilicitamente) adquirido

Enquanto isto, lá fora
Há problemas, há makas
Puxam-se facas
Cacos de garrafas em mãos raivosas
Falares de revolta em vozes furiosas
Vai haver pancadaria à qualquer altura

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
Faz-se amor, amor proibido
Amor pecado
Mais uma amante conquistada
Mais uma mulher enganada

Enquanto isto, lá fora
Gente esfomeada às guerras
Gente esfomeada às turras
Turras por um pedaço de pão
Turras pelo espaço na cama-chão
Vai haver pancadaria à qualquer altura!

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
Tudo bem, ri-se à toa
Afinal a vida é boa
O lucro fácil, é fácil de se conseguir
É fácil de se dquirir

Enquanto isto, lá fora
Adolescentes vadios
Descarregam entre si ódios,
Há no ar ameaças de morte
Há gritos por toda parte,
Entretanto a noite é avançada em hora
E vai haver pancadaria à qualquer altura!

Décio Bettencourt Mateus

in "Os Meus Pés Descalços"



Saturday, April 18, 2009

JÚLIA, A DANÇARINA

Movimenta-se para trás e para frente
São graciosos os seus movimentos
Movimenta-se alegre e contente
E mil pensamentos
Cintilando em mim
Mil pensamentos desfilando sem fim

E sorri de quando em quando
É bonito o show dos seus movimentos
É bonito o show e mil pensamentos
Malandros em minha mente
Enquanto Júlia balanceia o corpo ora para frente
Ora para trás e eu apreciando

Balanceia o corpo, movimentos insinuantes
Em sua ingenuidade de mulher-menina
Balanceia o corpo, movimentos cativantes
Júlia, a dançarina
A dar espectáculo de graça
A dar espectáculo, a mulher-criança

E volta e meia, sorri aqui para o lado
Sorriso-convite, sorriso malandro
A sugerir encontro
Júlia, mulher-menina
Mulher dançarina
A dar show para mim, seu apaixonado

E vai viajar a Júlia, a dançarina
Vai para o norte, talvez para o Uíge
Ou outra província mais longe
Vai-se embora a minha dançarina-menina
Vai dar show para um outro qualquer
Júlia, meu amor menina-mulher!

Júlia, a menina-dançarina
Vai dançar para um homem qualquer do norte
Ou mesmo de outra parte
Júlia menina linda
Meu amor relâmpago do aeroporto de Luanda
Júlia, a minha dançarina-menina!

Décio Bettencourt Mateus

in "Os Meus Pés Descalços"

Tuesday, November 04, 2008

DE NOVO RECOMEÇAR

Novamente
E mais uma e outra vez
De novo começar
De novo no desejo de recomeçar
Vencer a indecisão, a dúvida e o talvez
E tudo de novo recomeçar pacientemente

De novo começar
De novo e outra vez mais, tudo recomeçar
Timidamente
Quiça mesmo envergonhados
E acanhados
Mas de novo tudo recomeçar novamente

De novo recomeçar
Com o raiar do sol madrugador
De novo tudo iniciar
Com o cantarolar do galo-despertador
Novamente
Tudo de novo recomeçar pacientemente

Sempre recomeçar
Mais uma vez e outra mais e ainda outra
Recomeçar na reconciliação da palavra
Na reconciliação do gesto amigável
E afável
E novamente tudo de novo começar

E de novo, novamente recomeçar
Com o despertar do farfalhar
Sorrateiro da perna
Com o cheiro inconfundível do desejo sexual
Matinal
De novo tudo recomeçar que vale a pena!

E outra vez mais, de novo começar
Tal como no princípio, com o desejo vivo e ardente
O amor será o lubrificante
Do reencontro dos corpos sedentes
E carentes
O amor (re)brotará cristalino debaixo lençol
Neste de novo tudo de novo recomeçar
Apadrinhado pelo raio matinal de sol!


Décio Bettencourt Mateus

in "A Fúria do Mar"

Friday, September 19, 2008

FRUTA VERDE

Fruta verde de qualidade
E em quantidade
Fruta verde de catorze anos verdes
Nas discotecas, nas praias, na rua...
Fruta verde fruta ingénua
Abundante nas nossas cidades

Fruta verde mini-saia curtinha
A mostrar pernas bem torneadas
A mostrar ancas onduladas
Fruta verde fruta gostosinha
De dar água na boca
E fazer cabeça louca

Fruta verde fruta apetitosa
Seios tesos madurinhos
Fruta verde fruta saborosa
Calções pequenos calções curtinhos
Fruta verde a convidar com o andar
A convidar com o olhar

Fruta verde sensual nas praias
Corpo escultural a bronzear-se nas areias
Fato de banho fio-dental provocante
Corpo a amadurecer, nu excitante
Corpo a amadurecer, nu à mostra
De deixar boca sem palavra

Fruta verde flor a desabrochar
Corpo de mulher a florescer
Fruta verde flor a despertar
Corpo de mulher a amadurecer
Fruta verde fruta bonita
Homens ansiosos à espreita

Fruta verde, verde comida
Fruta verde desiludida
Não teve tempo de desabrochar
Não teve tempo de florescer
Fruta verde não teve tempo para despertar
Homens comeram fruta verde a amadurecer!

Fruta verde aos embaraços
Com filho verde nos braços!


In "A Fúria do Mar"

Décio Bettencourt Mateus

Wednesday, June 04, 2008

NAS BARROCAS DA VIDA

Lá, nas barrocas esquecidas
As gentes constroem casas de pobreza
Casas de podreza
E miséria de viver
É gente das barrocas da vida
É gente com teimosia no sobreviver

Lá, nas barrocas inacessíveis
E inalcançáveis
As gentes teimosas no viver
As gentes teimosas no querer
Habitam em suas casas de pobreza
Habitam em suas casas de podreza!

E vivem misturados
Confundidos e baralhados
Com imundices
As gentes das barrocas da vida
Vivem misturados e casados com chatices
As gentes das barrocas esquecidas

E é gente como nós, afinal
Namoram e se engravidam
E depois amigam
Namoram e fazem filhos, as gentes das barrocas da vida
As gentes das barrocas esquecidas
É gente como nós, as gentes que vivem mal!

É gente com ambição
As gentes das casas de pobreza
É gente com coração
As gentes das casas de podreza
É gente como nós, as gentes das barrocas da vida
As gentes das barrocas esquecidas

E as gentes das barrocas esquecidas
As gentes que também namoram
E se engravidam
Depois bebem kaporroto*
E se alegra seu pensamento
Bebem kaporroto e se alegram suas míseras vidas!

Luanda 22 de Fevereiro, 2005

*Bebida caseira angolana

Décio Bettencourt Mateus


in "Os Meus Pés Descalços"

Monday, November 26, 2007

A ZUNGUEIRA

O miúdo nas costas, faminto
O sol queimando
O sol assando
O miúdo nas costas, faminto de alimento
As moscas acariciando-o
E o lixo distraindo-o!

A zungueira zunga, cansada
Na cabeça, o negócio e o sustento
E nos pés empoeirados
O cansaço dos quilómetros galgados
O cansaço da distância percorrida
A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto!

A zungueira zunga, cansada
E vai gritando e berrando a plenos pulmões:
Arreou, arreou, arreou nos limões...
A zungueira zunga, empoeirada
E arreia o negócio, arreia o preço e faz desconto
Arreia o preço do sustento

O miúdo nas costas faminto
A lombriga na barriga rói, a lombriga pede
O miúdo nas costas, faminto de alimento
Chora e berra
Não é birra
É a fome que aperta, é a fome da sede!

A zungueira zunga, apressada
E arreia o negócio, arreia o preço:
Arreou, arreou, arreou no chouriço...
A zungueira zunga empoeirada
E arreia o preço do negócio
Arreia o preço da mercadoria, coisas do ofício

Depois, a viatura da fiscalização
Os travões chiam, as marcas dos pneus no asfalto
E os homens arrogantes a perseguirem
E a baterem
E a zungueira a fugir, e o negócio e o sustento
Caídos, espalhados no chão!

Depois vem o fiscal, também faminto,
“Você tem autorização?
Acompanha, isso é transgressão!”
A zungueira implora e mostra a fome:
Tem dois dias o miúdo não come
A lombriga na barriga precisa alimento!

O fiscal, também faminto
Arreia o lucro da zungueira cansada
E desesperada
Arreia o lucro, senão a zungueira vai presa
Senão a zungueira não volta a casa
E a zungueira cede, com medo no pensamento

Depois a zungueira chega a casa
De bolsos vazios, mas alívio no coração
E grata, afinal não foi presa
Afinal não foi à prisão
A zungueira chega a casa, o miúdo faminto
O miúdo sedento de alimento

Mas amanhã, a zungueira voltará a berrar
Amanhã a zungueira voltará a arrear:

Arreou, arreou, arreou em qualquer coisa…


Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"

Zungueira: Mulher vendedora que deambula pelas ruas
Zungar: Deambular pelas ruas
Arreou, arreou (...): Em jeito de cântico, as mulheres anunciam a baixa dos preços

Friday, September 07, 2007

UM OUTRO EU

Um outro eu, distante de mim
Distante de me pertencer
E distante de me querer
Um outro eu, num qualquer outro jardim
Dum qualquer outro canto
E com um qualquer outro pensamento

Um outro eu perdido
E desaparecido
Feito vagabundo a deambular para trás e para frente
Ora triste ora contente
Hoje aqui, amanhã ali e depois acolá
Um outro eu feito vagabundo, hoje aqui amanha lá!

Um outro eu por aí numa qualquer esquina
Com uma qualquer companhia
Num qualquer dia
E quiçá com uma qualquer mania
Procurando sua sina
Um outro eu talvez por aí perdido em angústia!

Um outro eu, numa qualquer discoteca de Luanda
Mulher bela, mulher linda
Mulher da vida, mulher que anda
Mostrando pernas grossas e exibindo os seios
Um outro eu mulher gatuna, roubando prazeres alheios
Numa qualquer discoteca de Luanda

Um outro eu, num qualquer quarto de um hotel
Numa cama de um hotel, sorvendo mel
Dando mel a um qualquer desconhecido
Conhecido
Um outro eu mulher linda
Prostituindo-se num qualquer hotel de Luanda

Um outro eu, num qualquer carro desconhecido
Em gemidos proibidos
Algures em canto escondido da ilha de Luanda
Da ilha da kianda
Um outro eu gozando prazeres aldrabados
Gozando prazeres contaminados!

Um outro eu dançando a tarrachinha
Pernas nas pernas entrelaçadas, desejo vivo nas entrelinhas…
Corpos nos corpos juntinhos
Respiração em respiração
Em louca excitação, em louca comunhão
Um qualquer eu a tarrachar, sexos nos sexos coladinhos!

Um outro eu às vezes, por aí entristecido e disperso
Num qualquer canto do planeta
Quiçá mesmo do universo
Um outro eu feito um qualquer cometa
Perdido à procura duma qualquer outra meta
Perdido à procura dum qualquer outro verso!

Um outro eu mulher linda
Mulher da vida, prostituindo-se num qualquer hotel de Luanda!


Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"

Monday, July 09, 2007

OS MEUS PRETENDENTES

Na Segunda, vem o João
Engatatão
Conversas fiadas, te quero miúda
Sem ti não vivo, não sou nada
Um planista, um intrujão
E leva logo uma tampa, leva um não!

Na Terça vem o Manuel
Montão de namoradas
Montão de apaixonadas
E falas mansas, falas em mel
Não me inspira confiança
Manuelito não me inspira segurança

Na Quarta vem o Pedro
Garganta inflamada em conversas
Garganta inflamada em promessas
Não perdes nada
Dou-te universos e galáxias miúda
Pedro tem massa, Pedro tem dinheiro!

Na Quinta vem o Toninho
Um cavalheiro
Em falas discretas em carinho
E ternura
Falas discretas em doçura
Um cavalheiro em bolsos magros de dinheiro!

Na Sexta vem o Victor
Olá querida, olá amor
Conversa astuta, conversa ágil
Victor é imbumbável*, gosta de boa vida
Víctor é imbumbável, gosta de boa bebida
Victor, o imbumbável, gosta de vida fácil!

Ao Sábado vem o Quim
De poucas falas em sua timidez
E fala-me sincero no olhar
Fala-me sincero no conversar
Quinzinho inspira-me confiança, talvez …
Quinzinho mexe comigo, talvez… o sim!

Ao domingo descanso
E penso
Penso Manuel, Pedro, Toninho, Victor, João…
Humm, Não!
Depois, depois penso Quim
E logo-logo estremece-me o coração. Talvez… o sim!

Na Segunda vem o Bento
Conversas de casamento
Na Terça vem o César
Quer amigar
Na Quarta vem o Valter
Amo-te, ficas a segunda mulher …


Ao domingo, descanso e penso Quim
Talvez… o sim!

Quinzinho quer dar alambamento,

Vou aceitar!

Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"

*Imbumbável: que não trabalha

Thursday, May 24, 2007

CONVERSAS COM UM KAMBA

Outro dia vi-te, algures num canto qualquer
Falavas asneiras
E baboseiras
À mistura
Pensei, talvez loucura
Bem me lembro, vi-te num dia qualquer a não esquecer

Falavas amargurado e revoltado
De coisas que se pensam
E não se falam
Falavas amargurado
E sonhavas com um passado há muito enterrado
Com um passado há muito passado!

Falavas também de um futuro que nunca existiu
Um futuro com que sonhaste um dia
Um futuro utopia
Que até se cansou e desistiu
De ser o futuro adiado
Cansou e desistiu de ser o futuro abortado!

E te revoltavas com a dor vinda dos outros
Pois como sonhador
Já não sentias a tua dor
Mas era a dor dos outros que te afligia
Era a dor dos outros que te atingia
E te revoltavas com a dor vinda dos nossos

Falavas destas coisas, amargurado
Falavas de futuros doutores
Futuros pensadores
Nas ruas feitos ambulantes
Torrados por raios de sol escaldantes
Torrados por porretes de fiscais malvados!

Falavas também a amargura, das tuas manas bonitas
Das tuas manas feitas prostitutas
Feitas kitatas
Numa qualquer esquina da Mutamba
Vindas dos musseques do Cazenga, Rangel, Samba…
Falavas destas coisas meu kamba

Depois lastimaste o estado das estradas
Gerações e gerações de buracos
A prosperarem
Gerações e gerações de crateras a se multiplicarem
E a imundice dos musseques e seus becos
E das suas gentes cansadas!

Depois meu amigo, não mais ouvi de ti
Não mais te vi numa qualquer esquina de Luanda
Ou mesmo desta Angola
Desta terra bela
Depois, recebi uma missiva em que dizias lacónico, “parti
E sou um frustrado fora da banda!”

Décio Bettencourt Mateus

in "Os Meus Pés Descalços"

Friday, April 27, 2007

INSTANTÂNEO DE SEMÁFORO

Olho e sorrio
E assobio…
É bonita,
Ela olha e fita
Zombateira
E gosta da brincadeira

Olho e aprecio
E elogio
Que belezura
Ela olha a procura
Está interessada
Está caída!

Olho e gosto
Que rosto
É o máximo
Ela olha e chega próximo
Que encanto
Que momento!

Olho e aposto
E conquisto
Quero-te filha
É amor à primeira vista
Ela olha e brilha
Não estás na lista!

Olho e vibro
E sou outro
É ela
A minha estrela
Ela sorri, como te chamas
E diz se me amas

Olho e insisto
Não desisto
Digo-lhe o nome
E peço-lhe o telefone
O verde acendeu
E o carro dela arrancou, desapareceu!


Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"

Thursday, April 05, 2007

OS MEUS PÉS DESCALÇOS

Os meus pés andantes
Procuram a palanca real, palanca negra
E desencantam as quedas de Kalandula
Quedas da minha terra
Oh é bela Angola
É bela Angola e são felizes os meus pés caminhantes

Os meus pés empoeirados
Acariciam subsolo rico, ouro negro a jorrar no alto mar
Ouro negro a jorrar no offshore
E no onshore
Ouro negro a brotar
Das entranhas do mar, para os meus pés esfomeados!

Os meus pés garimpeiros
Apalpam tesouros e mais tesouros
Minas de diamante, ferro, cobre, prata, ouro…
Debaixo dos meus pés ásperos
Minas de diamante debaixo dos meus pés maltratados
Debaixo dos meus pés esfomeados

Os meus pés camponeses
Galgam a terra, terra boa de agricultura
Terra boa de verdura
E farta de feijão, mandioca, milho, batata…
Terra boa, terra farta
Debaixo dos meus pés famintos e felizes

Os meus pés pescadores
Banham-se em mares ricos
Mares de garoupas, corvinas, carapau, mariscos…
E mergulham em rios fartos, Kwanza, Kubango
Keve, Bengo…
Águas fartas a banharem os meus pés sofredores

Os meus bolsos vazios
Vêem outros bolsos vazios aterrar desnutridos
E depois, bolsos cheios
A levantar voo, a embarcar abastados
Bolsos cheios a embarcar com sorrisos
A embarcar abarrotados, oh que paraíso!

Os meus pés descalços
Clamam por migalhas, clamam por pedaços
Os meus bolsos vazios
Não clamam por milhões, não clamam por rios
Os meus bolsos vazios e os meus pés famintos
Clamam somente por migalhas de alimentos!


Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"

Monday, February 19, 2007

AS MÃOS DA MÃE

As mãos. Mãos calejadas
E enrugadas
Mãos precocemente envelhecidas
E endurecidas
As mãos sofridas da mulher
Cansadas de sofrer!

As mãos. Mãos molhadas
E húmidas
Toneladas de roupa no tanque
À espera das mãos trabalhadoras
E sofredoras
Toneladas de roupa à espera num qualquer musseque!

As mãos da mãe. Mãos outrora finas e delicadas
Agora maltratadas
E calejadas
A roupa, o tanque, a cozinha, a lida da casa…
E as mãos cansadas na sua beleza
As mãos na sua aspereza!

As mãos da mãe. Mãos enrijecidas
E endurecidas
Mãos ásperas travaram longas batalhas
E exibem as medalhas
Exibem os calos das batalhas travadas
Os calos das mãos. As mãos da mãe outrora delicadas!

As mãos. As mãos da mãe trabalham a terra
Com vigor e garra
As mãos trabalham, o suor corre
O suor escorre
As mãos cultivam os produtos, cultivam o milho
As mãos calejadas alimentam o filho!

As mãos da mãe. Mãos ásperas sem instrução
Mãos sem escola, sem preparação
Trabalham duro
E preparam o futuro
As mãos sem escola vão formar doutores e engenheiros
As mãos sem escola vão formar cérebros!

As mãos da mãe. Mãos lindas plantando rosas de amor
Mãos lindas plantando um mundo melhor!


Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"

Friday, January 26, 2007

DIALOGANDO COM AS ESTRELAS

Às estrelas
Vou falar das moças belas
Algures com um filho nos braços
No rosto os traços
De uma promessa não cumprida
Depois do corpo usado

Às estrelas
Vou falar dos mutilados
Não terão sido enganados?
E a angústia daquelas
Que debalde esperam pelos maridos
Numa mata qualquer desaparecidos e esquecidos

Às estrelas
Vou falar das crianças famintas
E gritar quantas
De entre elas
Morrem de fome
Antes mesmo de terem um nome

Às estrelas
Vou falar da guerra
Aqui na minha terra
E perguntar se no mundo delas
Também é assim
Com matanças sem fim

Às estrelas
Vou falar das celas
Em que aprisionaram a liberdade
E encarceraram a felicidade
Numa noite qualquer
Para esquecer

Às estrelas
Vou pedir um passaporte
Com visto para marte
Em venturosas escalas
Rumo ao infinito universo
Deixando para trás este mundo perverso

Às estrelas
Vou falar com elas...


Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"

Tuesday, October 31, 2006

CARTA DE UM ANGOLANO NO ESTRANGEIRO

Partimos para a pedreira
Bem sabes que não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos,
Partimos para novamente sermos os contratados
E os explorados
Para sermos os sem eira nem beira

Mão de obra barata, partimos
Para construirmos e edificarmos
Com a força dos nossos braços vigorosos
E dos nossos peitos musculosos
Os prédios, as estradas, as pontes...
Em terras alheias, terras distantes

Partimos
Bem sabes que não é isto que queríamos
Tu que sonhaste com doutores e engenheiros
Agora tens-nos carpinteiros e pedreiros
A desenvolver países estrangeiros
Países dos outros

Partimos para sermos espancados
E levarmos bofetadas
Dos cabeças-rapadas
Partimos para sermos desdenhados
E chamados com desprezo, pretos!
Nestes lugares longínquos, lugares incertos

Partimos, mas não queríamos partir
Lá no Menongue queríamos construir
Os hospitais, as escolas, as pontes...
Lá queríamos erguer um arranha-céus
Para então gargalharmos desafiantes
Os brancos europeus
(Mas lá no Menongue, não aqui em Portugal
Que isto nos faz sentir mal)

Partimos
Bem sabes que nos forçaram a partir
Fugimos
Bem sabes que nos nos forçaram a fugir
Mas não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos

O que nós queríamos
O que nós desejávamos
É construir uma ponte
E uma auto-estrada gigante
Que unisse os corações dos angolanos,
É isto que desejamos todos estes anos

Partimos
Mas bem sabes mãe, não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos!


Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"

Monday, October 23, 2006

A MINHA CASA

A minha casa
É fácil de localizar
É fácil de encontrar,
Basta ires sempre em frente
Para além da linha do horizonte
É fácil concerteza

Primeiro encontras lixo
Lixo e pessoas em convivência
E em harmonia,
Lixo na parte de baixo
E na parte de cima
Lixo e pessoas em convivência íntima

Mais adiante
E com o mau cheiro crescente
Encontras uma lagoa
E nela, crianças a banharem
Crianças a brincarem
Na maior, numa boa

Mais a frente
Entras em becos estreitos
Becos pequenos e apertaditos
É fácil, é só teres isto em mente
Becos e suas enxurradas
Becos e suas águas estagnadas

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a água corrente
Lá onde a água potável
Passa muito distante
E da cor do invisível!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a luz eléctrica
Connosco brinca
Qual nuvem passageira
Que ora vai, ora vem zombateira!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Cheiro de kaporroto* no ar
Cheiro de kimbombo** a vibrar
Nossas bebidas do dia-a-dia
Nossas bebidas nossa companhia

E no quintal da minha casa
Há jovens a falar alto bêbedos
Jovens cansados, frustrados e arrebentados
São os meus kambas***
Kambas das bebedeiras e das malambas****
É fácil de localizar concerteza,

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte!


Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"

* Bebida caseira angolana
** Bebida caseira angolana
*** Amigos
**** Problemas, tristezas

Wednesday, October 18, 2006

NOSSOS SONHOS DE NAMORO

Lembras-te, nós iríamos fazer longa viagem
Iríamos mergulhar
E explorar
As profundezas dos oceanos
Africanos
Nós iríamos sim fazer esta viagem miragem

Nós iríamos navegar o céu dos céus
Descobrir a linguagem do universo
Fazer amor em versos
E descobrir Vénus
Na essência do encantar
Descobrir Vénus na essência do amar!

Lembras-te, nós iríamos a correr descalços
Pelos campos, vales, montanhas …
Nossos pés acariciando as ervas daninhas
E o capim verde
Nós iríamos sim, em grandes abraços
Plantar árvores de felicidade!

Nós iríamos nos fundir com as estrelas
Conversar com elas
Dizer segredos a Júpiter, Saturno e Marte
Oh que sorte
Nós iríamos cobrir o infinito dos espaços
Com os nossos abraços!

Nós iríamos tomar banho na chuva vespertina
Chuva cristalina
Nossos corpos molhados
Juntinhos
E abraçadinhos
Nossos corpos em juras de amor, entrelaçados!

Depois gargalharíamos de coisas sem importância
Coisas banais, sem significância
Coisas do dia-a-dia
Gargalharíamos felizes
E faríamos as pazes
Por um qualquer desentendimento-mania

E ao cair do dia, ao cair do dia iríamos à ilha
Ver o pôr-do-sol acontecer
Que maravilha,
O sol penetrando no mar
O mar engolindo o sol, a amar
O sol e o mar em gemidos de amor de enlouquecer!

Depois, depois, nosso sonho esfumou-se
Nosso sonho evaporou-se …

Mas nós iríamos sim
Nós iríamos fazer estas coisas assim…


Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"

Monday, October 16, 2006

O CANDONGUEIRO*

Paragem do candongueiro:

Sol escaldante
A fustigar gente
Gente aborrecida
De pé, cansada de esperar
Gente entristecida
Com raiva no olhar!

Ao entrar no candongueiro:

Correrias
Gente aos empurrões
Gente aos safanões
Mãos leves puxam carteiras
Mãos malandras nas mbundas das senhoras
É assim todos os dias

Dentro do candongueiro ...

Gritarias
Barulheiras
Gente aos desentendimentos
E a protestar
Gente com vincos nos rostos
E com raiva no falar!

Barulho
Carro velho
Sujo e desconfortante,
Musica alta e ruidosa a incomodar
E a perturbar gente
Gente com raiva no escutar!

Carro abarrotado
De gente
Gente descontente
A reclamar
E mais gente a entrar
Carro de gente empanturrado

Gente apertada
A suar
Gente mal cheirosa encostada
A transpirar
Gente misturada com mercadorias
É assim todos os dias

... E durante a viagem:

Só eu, no meu canto
Não protesto
E até gosto
Do desconforto da viagem,
Um encanto
Viajar ao teu lado jovem
(Glória, sussurraste no meu ouvido
Em cima do muito ruído)

Só eu, aprecio as curvas apertadas
Que o motorista faz
Pois muito me apraz
Sentir tuas pernas encostadas
Às minhas
Olhando de soslaio tuas maminhas

Só eu sinto teu calor
Tua respiração ofegante
E teu agradável odor
Só eu viajo contente
Meu corpo colado ao teu
Teu olhar cravado no meu!

Que a viagem dure eternamente
E que entre mais gente!


Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"

* Taxi em Angola

Friday, October 13, 2006

DISCURSO NO PARLAMENTO

Um dia, encho-me de coragem
E vou mesmo discursar no parlamento
Confesso que fiz juramento
De ir a pé até lá
De entrar naquela sala,
Para discursar a minha mensagem

Um dia, apareço nas câmaras da televisão
Verdade mesmo, não é ilusão
Apareço com o meu rosto maltratado
Com o meu rosto de drogado
Para pedir um ponto de ordem
Aos senhores deputados,
Eu mesmo que vivo do outro lado da margem

Ja sei que vão olhar com indignação
Para os meus pés descalços
Para os meus calções rotos
E para os meus magritos braços
Já consigo imaginar os vosso rostos
De indignação e estupefacção

Mas mesmo assim eu vou mesmo discursar
Em plena assembleia nacional
Assim mesmo, com este meu visual
De menino de rua votado ao abandono
De menino de rua cão sem dono
Eu vou à assembleia nacional falar

Assim mesmo, sem convite
E sem ser chamado
Eu, que não sei falar português de escola
Vou entrar naquela sala
Para falar com os senhores deputados
Eu vou lá sem convite, acredite!

E antes de me porem andar à paulada
Antes de me mandarem calar à porrada
Vou rasgar o meu peito
Para vocês escutarem o grito
De tanto sofrimento vivido
De tanto sofrimento bebido

E enquanto estiver a ser arrastado
Para fora da assembleia nacional
Eu, menino de rua cão sem dono e drogado
Eu, menino de rua marginal
Ainda terei coragem
Ainda serei capaz
De trovejar a minha mensagem:
POR FAVOR, PÃO, TECTO E PAZ!

Não levem a mal
Mas eu vou mesmo discursar em plena assembleia nacional!


Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"

Tuesday, October 03, 2006

CASEI-ME COM A POESIA

Fui a um Jardim
Com bonitas flores
De agradáveis odores
Escolher uma para mim
Para com ela me juntar
E amar

Escolhi uma rosa
E com ela tive uma prosa
Sobre meus planos de casamento
No momento,
A rosa disse não
E seus espinhos feriram meu coração

Mais adiante
Escolhi um belo cravo
E falei-lhe de amor
Mas o cravo era altivo
E no mesmo instante
Sua resposta foi um dissabor

Depois
Escolhi uma orquídea bonita
E estando a sós os dois
Falei-lhe de mansinho
E com carinho
A orquídea disse-me que era tudo fita

Com mais flores
De agradáveis odores
Falei de amor
E mais amargor
Recebi como resposta
Para meu desgosto e desfeita

Por último
Em um belo dia
Procurei e encontrei a poesia,
Falei-lhe íntimo
A poesia não complicou
A poesia aceitou

A poesia deu-me primazia
Namorei e casei com a poesia
Esqueci-me das flores
De agradáveis odores
Esqueci-me do jardim
E do seu caminho outrossim

Casei-me com a poesia
A que me deu primazia!


Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"