Um homem caminha pernas e músculos
relaxe nos calções, sandálias
tempos cálidos, praias
banga no olhar escuro nos óculos
afadigado pedestre comum
viaja sonha cousas d´espaço algum.
Um homem vem sentar-se nas mãos o funje
da terra deliciar saborear
peito nu correntezas d´ar
línguas sons da terra kissanje
gargalha caminha pai de família
na igreja bebe embriaga-se d´homilia.
Um sargento caminha nas botas as tardes
aprumo camuflado militar
metralhadora canos alardes
mira de morte indefesa gente a deambular
uma Kalashnikov pólvora e balas
cinturões cartucheiras e mochilas.
Kalashnikov ordens superiores no cérebro
patentes de morte no ombro
dedos unhas gatilho metal
a manipular premir letal
uma culatra olhar mirado,
um homem um outro antes de família, armado.
À noitinha agacha-se de vulgo no leito
geme dorido um filho gritarias de fome
ronca descansa intranquilo sono e dorme
ordens de morte Kalashnikov no peito
olhar fumegante morte a pedestre gente:
é vítima severa servente (des)inocente!
Décio Bettencourt Mateus
Luanda, 20 de novembro de 2011.
Thursday, October 05, 2017
Thursday, March 31, 2016
QUE COUSAS ANDAM TORTAS...
… E que cousas
andam os anos
do filho da Suzete zungueira
recém-nascidos, na poeira
na zunga dos quotidianos
que cousas andam tortas essas causas?
Os filhos da pedinte
mutilada na Baixa da Mutamba
mãos de imploro à gente
que passa e zomba
que cousas cabelos de fome russos
e bochechões nos discursos.
As gentes negras só negras
multidões ambulantes
nas ruas das estradas
a vender drogar as vidas
cousas de que horizontes
essas causas que leis que regras?
O filho da Mingota vendedora
na zunga da fome
bebé, são cousas que nome
causas que futuro
desespero
a vida as gentes esfarrapadas de poeira.
E as falas reluzentes
nas gravatas dos fatos
barrigas inflamadas refastelo
na esquindiva dos actos
o filho da Suzete Mingota das gentes
cousas assim para quando futuro dia belo?
Décio Bettencourt Mateus
in Os Portões do Silêncio
Luanda, 4 de Dezembro de 2009.
andam os anos
do filho da Suzete zungueira
recém-nascidos, na poeira
na zunga dos quotidianos
que cousas andam tortas essas causas?
Os filhos da pedinte
mutilada na Baixa da Mutamba
mãos de imploro à gente
que passa e zomba
que cousas cabelos de fome russos
e bochechões nos discursos.
As gentes negras só negras
multidões ambulantes
nas ruas das estradas
a vender drogar as vidas
cousas de que horizontes
essas causas que leis que regras?
O filho da Mingota vendedora
na zunga da fome
bebé, são cousas que nome
causas que futuro
desespero
a vida as gentes esfarrapadas de poeira.
E as falas reluzentes
nas gravatas dos fatos
barrigas inflamadas refastelo
na esquindiva dos actos
o filho da Suzete Mingota das gentes
cousas assim para quando futuro dia belo?
Décio Bettencourt Mateus
in Os Portões do Silêncio
Luanda, 4 de Dezembro de 2009.
Monday, December 07, 2015
EM FALAS GABAROLAS
Nas ondas que gabas e falas
teus fatos elegantes
luzidios repletos luzidios
falas de que gentes
se caminham míseros silêncios
quando enfartado falas de AC às salas.
Nas ondas que propagas
e advogas falares-me em nome
discursos papeladas ruídos
se famintas barrigas
fome em rosto disforme
quando arrotas teus passos abastados.
E falas e desdizes números
Gráficos rankings crescimentos…
se vivências desesperos
e sofrimentos
habitam os musseques as noites nos dias
quando de smoking gravatas jactâncias.
E te abrilhantas de TV em propalas
conversas de Marte e estrelas
senhor doutor mazé patranhas
de blá conversas artimanhas
se de bocas famintas
não sabem como caminham quantas.
E sozinho te banqueteias
lambuzas o mel as colmeias
te coroas príncipe herdeiro
terras mares petróleos diamantes
que se borrem longínquas gentes
de vivência mísero viveiro.
Rádios jornais TV em falas gabarolas
Desverdades conversas desfalas
se fumega o vulcão o magma
em quase erupção lágrima
te assustas nas sombras
dos teus passos discursos de baboseiras.
Décio Bettencourt Mateus
(In Os Portões do Silêncio).
Luanda, 9 de setembro de 2010.
Saturday, September 26, 2015
ANTES QUE OS HOMENS A COR
(Antes do Princípio)
Antes que viessem os homens
teríamos descalços
viajado matos montanhas
mãos dadas laços
juras e confidências d´entrelinhas
segredadas dispersas aos aléns.
Antes que soubéssemos as cores
teríamos deitado o capim
a estalar-nos as costas
a soletrares gemidos em mim
promessas e apostas
a colorirem-nos d´alvoreceres.
Antes que mapeassem diferenças
seríamos brincado felicidade
nus a sorrir crianças
tuas melodias sopro-murmúrio
nas correntezas do meu rio
antes que nos mentissem a verdade!
E deitaríamos o chão dos nossos lagos
adocicados, mel abelhas favos...
antes que os homens as teorias
e o cinzento dos dias
acariciaríamos os cravos
licores d´amor taças champanhe e tragos.
Antes, muito antes que nos viessem os homens
dia e noite uma linha d´horizonte
longínqua ténue reluzente
azul vida amanheceres
antes que soubéssemos as nuvens
e o brilho desfavorecido das cores,
que os homens inventaram depois
muito depois a distanciarem-nos os dois.
Antes que os homens a cor
corríamos felizes as constelações do amor.
Décio Bettencourt Mateus.
in Os Portões do Silêncio.
Tuesday, June 23, 2015
NGANA MINGO TAMBARINO
Ngana Mingo Tambarino madruga pastor
Bois vacas cabritos cajado...
apascenta o gado
aconselha-se nas manadas
soberano de cabeças e madrugadas:
um ruído disperso de castor!
Ngana Mingo Tambarino caminha caçador
braços vigorosos, arco, zagaia...
requinte no faro
precisão saber no disparo
o lúmen na noite uma fagulha luzidia:
uma corneta toca mãos de tocador!
Ngana Mingo Tambarino pássaro que voa-voa
Marte Vénus Júpiter
(um gemido oculto de mulher)
rosto erguido vaidade em proa
navega oceanos e galáxias
revoluciona noites e sabedorias.
Ngana Mingo Tambarino homem poder
homens encolhidos grunhidos
uma nuvem brinca às tranças
e ensaia melodias de danças
um sussurro-mulher
um homem navega paraíso e gemidos!
Ngana Mingo Tambarino canta baba geme,
uma cavidade de mulher
e Ngana voz treme-que-treme
prazer orgasmos
vulcão-tsunami-pasmos...
Ngana Mingo Tambarino, homem poder,
obedece que treme-treme à voz d´uma mulher!
Décio Bettencourt Mateus
in Os Portões do Silêncio
Luanda, 26 de Setembro de 2011.
Bois vacas cabritos cajado...
apascenta o gado
aconselha-se nas manadas
soberano de cabeças e madrugadas:
um ruído disperso de castor!
Ngana Mingo Tambarino caminha caçador
braços vigorosos, arco, zagaia...
requinte no faro
precisão saber no disparo
o lúmen na noite uma fagulha luzidia:
uma corneta toca mãos de tocador!
Ngana Mingo Tambarino pássaro que voa-voa
Marte Vénus Júpiter
(um gemido oculto de mulher)
rosto erguido vaidade em proa
navega oceanos e galáxias
revoluciona noites e sabedorias.
Ngana Mingo Tambarino homem poder
homens encolhidos grunhidos
uma nuvem brinca às tranças
e ensaia melodias de danças
um sussurro-mulher
um homem navega paraíso e gemidos!
Ngana Mingo Tambarino canta baba geme,
uma cavidade de mulher
e Ngana voz treme-que-treme
prazer orgasmos
vulcão-tsunami-pasmos...
Ngana Mingo Tambarino, homem poder,
obedece que treme-treme à voz d´uma mulher!
Décio Bettencourt Mateus
in Os Portões do Silêncio
Luanda, 26 de Setembro de 2011.
Sunday, March 08, 2015
AS HIENAS VIERAM A CORRER OS ABUTRES
As hienas vieram as hienas
fugidias do longe das matas
áridas de chuvas magras
silenciosas amenas
língua de fora astutas
fugidias das terras securas.
fugidias do longe das matas
áridas de chuvas magras
silenciosas amenas
língua de fora astutas
fugidias das terras securas.
Vieram escapulidas fome nas patas
terras deserto nos rios
as hienas gargalhadas marotas
esquinadas nos lábios
caudas mansas
salivando gargalhando sonsas.
as hienas gargalhadas marotas
esquinadas nos lábios
caudas mansas
salivando gargalhando sonsas.
As hienas vieram a correr os abutres
pendurados nas árvores
terras à mercê presas
pulsarem palpitarem indefesas
a noite gemidos de morte
a noite uivadas à corte.
pendurados nas árvores
terras à mercê presas
pulsarem palpitarem indefesas
a noite gemidos de morte
a noite uivadas à corte.
Cercaram cinturões às terras
trocistas multidões d’hienas exércitos
gritarias hienadas gritos
as hienas soslaio matreiras
os abutres os chacais as feras
as gentes desesperam as terras.
trocistas multidões d’hienas exércitos
gritarias hienadas gritos
as hienas soslaio matreiras
os abutres os chacais as feras
as gentes desesperam as terras.
As hienas assentaram o covil
conversa astuto ardil
águas pastosas reluzentes
sorriso nos cantos sorridentes
as hienas as feras os abutres:
terra gente húmus desesperam pobres!
conversa astuto ardil
águas pastosas reluzentes
sorriso nos cantos sorridentes
as hienas as feras os abutres:
terra gente húmus desesperam pobres!
Décio Bettencourt Mateus.
Luanda, 12 de Outubro de 2010.
Saturday, December 06, 2014
QUASE TE AMEI MIÚDA!
A uma Tânia
Quase te amei segredo
Quase te amei segredo
nas
noites cúmplices
andando a Mutamba escura
remorsos, sobes e desces
em eterna busca-procura
procurando-te os olhos cor gemido.
Quase te amei miúda
esgravatando eternidades adentro
ruídos calemas mar
a dialogarem-me a voz do luar
caramba!, é gaja noite da vida
vasculhando a palpitar-me dorido centro.
E sonhar-te de bicos finos manteúda!
Avenidas prostitutas palpites
maldizendo-te caramba, negócios
merda avenidas e andanças, miúda
meu mar oceanos e silêncios
nas rodas solitárias das noites.
Teu ventre a tremer-me espasmos
Marte Júpiter Saturno Vénus…
a trotarmos galáxias e céus:
a infinidade, minúcias d’orgasmos
detritos, gargalhadas cristalinas
esvaídas na Mutamba das esquinas!
Quase te amei miúda
o destino na voz do teu universo:
sou tudo de todos, arco disperso
nas avenidas da ilha defraudada
uma estrada prostituta à noite
uma janela um telhado aberto convite.
Quase te amei miúda
e sonhar-te de saltos-altos manteúda!
Décio Bettencourt Mateus in Os Portões do Silêncio.
Luanda, 01 de fevereiro de 2010.
andando a Mutamba escura
remorsos, sobes e desces
em eterna busca-procura
procurando-te os olhos cor gemido.
Quase te amei miúda
esgravatando eternidades adentro
ruídos calemas mar
a dialogarem-me a voz do luar
caramba!, é gaja noite da vida
vasculhando a palpitar-me dorido centro.
E sonhar-te de bicos finos manteúda!
Avenidas prostitutas palpites
maldizendo-te caramba, negócios
merda avenidas e andanças, miúda
meu mar oceanos e silêncios
nas rodas solitárias das noites.
Teu ventre a tremer-me espasmos
Marte Júpiter Saturno Vénus…
a trotarmos galáxias e céus:
a infinidade, minúcias d’orgasmos
detritos, gargalhadas cristalinas
esvaídas na Mutamba das esquinas!
Quase te amei miúda
o destino na voz do teu universo:
sou tudo de todos, arco disperso
nas avenidas da ilha defraudada
uma estrada prostituta à noite
uma janela um telhado aberto convite.
Quase te amei miúda
e sonhar-te de saltos-altos manteúda!
Décio Bettencourt Mateus in Os Portões do Silêncio.
Luanda, 01 de fevereiro de 2010.
Saturday, September 20, 2014
UM MENDIGO ROBOTEIRO
Um mendigo veio
a cantar-me as dores do silêncio
mãos pedintes
mendigadas às gentes
antigo combatente lágrimas amuadas
ciciadas discretas às madrugadas.
Um mendigo veio nos olhos
a questionar pasmar ignorante
as cousas vivências requinte
costas doridas a estalarem galhos
passos descalços pés trôpegos
e multidões infindas de mendigos.
Era roboteiro um farrapo qualquer
a saltitar espreitar o candongueiro
há-não-há ganha-pão mercadoria
um mendigo miserável roboteiro
a chafurdar lambuzar porcaria:
uma estrela goteja lágrimas d´enternecer!
Eram braços robustos
emprestados a um corpo magro
pernas gemido caminhar um negro
um mendigo roboteiro veio
pasmando fatos smoking atavio…
as rugas nutridas nos rostos.
E foi-se carregando o mundo as escórias
num carro de mão sustento
untado besuntado lamento
lágrimas segregando histórias
um mendigo roboteiro trabalhador:
o planeta convulsiona rotações d’arco lágrimas e dor!
Décio Bettencourt Mateus
in Os Portões do Silêncio
Monday, September 15, 2014
Saturday, July 19, 2014
MAR, PORÕES, CORRENTES…
Mar,
porões, correntes…
noites de chibatadas
e triângulos de escravatura!,
murmúrios, batuques e gentes:
o amanhecer é uma noite escura
a tatear teias e madrugadas!
Sons, África, gemidos…
a zumbirem melancólicos
chicotadas e cânticos
azul, sal e ranger dentes:
tons África deploram noites surripiadas:
o escuro funde horizontes!
Negros, mar, águas incógnitas…
rumorejam infindas
nostalgia e ondas
caminhos de morte
e sopros de norte:
o destino são vozes roucas desertas!
A morte adormece o mar;
negros, negreiros, navios
o Atlântico repousa oceano
em dorso dorido sereno,
lamentações e luar:
almas escravas choram silêncios!:
Ó Salvador, Salvador, Salvador*
a mesma dor Salvador
pretas, cocos, catanas, baldes e miséria
a mesma dor Luanda-Bahia
o mesmo ritual de páginas escravatura
o mesmo ritual turvo d´amargura.
Ó Salvador, Salvador, Salvador...
* capital do estado brasileiro da Bahia.
Décio Bettencourtt Mateus
Sunday, April 06, 2014
ESTE CHOCALHAR DE PÉS
Este
chocalhar revolto
Luanda,
5 de Agosto 2006.
em
pés empoeirados
e
cacimbados
no
quente do asfalto
vem
do longe dos musseques
e
traz o som dos batuques.
Este
chocalhar de pernas femininas
a
lutar bagatelas
e
gritarias
em
pedaladas fugidias
vem
do longe das sanzalas
e
foge a dança das minas.
Vêm
perdidas das matas
perdidas
das kubatas
estas
chocalhadas em chão quente
de
sol arrogante
vêm
corridas das lavras
e
trazem a fome das terras.
Este
arrastar de pés zungueiras
com
falas de asneiras
em
conversa matumba
vem
do longe dos musseques
e
dança a dança dos batuques
a
resmungar o chão da Mutamba.
Este
fedor forte
conhece
os grãos da estrada
os
grãos da caminhada
e vem
d’alguma parte
escapulido
das minas
vêm d’alguma
parte estas chocalhadas femininas.
Esta
catinga fedeu-se distante
fugidia
deslocada
do
kimbo aos gritos mãos na cabeça
desesperançada
sem
graça
esta catinga fedeu-se em andanças galopantes.
Este
chocalhar em pés encardidos
e
rachados
este
chocalhar revolto
em
pés de zungueira no quente do asfalto
vem
do longe dos musseques
e
dança a dança dos batuques!
Décio Bettencourt Mateus.
in Gente de Mulher.
Sunday, January 12, 2014
SOU UM PÁSSARO...
Sou um pássaro
na infinidade
do azul claro
na infinidade
do azul infinito
meu grito
ecoa a
liberdade
das
infinidades da infinidade.
Sou vida
marinha vida aquática
navego as
profundezas
e encantos
dos oceanos
revoltos e
serenos
navego a
força mítica
da força das
correntezas.
Sou astro no
Universo imensurável
vivo a
explosão da vida
no além
insondável
das galáxias
escondidas
vivo a vida
no além empoeirado
do cosmos
distanciado.
Sou vulcão
sou lava
em fervuras nas
entranhas da terra
grito a
essência
grito a
efervescência
da bravura na
rocha viva
grito a
explosão da vida na rocha viva.
Sou as ondas
do mar
em altas
braçadas, Atlântico
Pacífico,
Índico
sou a
sinuosidade do curso
da imensidão
do Universo
em braçadas
de expansão, a amar!
Sou um
pássaro
na infinidade
das infinidades do azul claro!
Décio
Bettencourt Mateus
In Gente de
Mulher
Luanda, 25 de
Novembro de 2005.
Tuesday, November 12, 2013
OS PASSOS DA MINHA POESIA
São de poesia
os passos distraídos
os passos distraídos
que galgo num Sol ardente
do meio-dia
dum qualquer dia distante
a ecoar meus passos enluarados.
São de poesia
as voltas sem destino que trilho
a errar a Mutamba
a sofrer tuas malambas…
a dualidade do brilho
da vida a sorrir-me durezas e
cortesia.
E também a dor
o peso que sinto
nas imbambas de sustento
carregas na cabeça de zunga
a galgar distância longa
é também poesia a dureza deste labor!
A desarmonia
tua fome que me rói também
nas fúrias do homem
emporcalhado
d’embebedado
são espinhos da minha poesia.
Outrossim são poesia
as caminhadas solitárias
a descobrir poesia nas areias
do chão por ti galgado
e trilhado
são de poesia as minhas trajectórias!
Décio Bettencourt Mateus.
in Gente de Mulher
in Gente de Mulher
Luanda, 30 de Agosto de 2006.
Thursday, June 27, 2013
AS SOBRAS DAS SOMBRAS
Faço de contas a fingir
que no nascente
do poente
o Sol brilha para mim também
e no além
brotam migalhas de justiça a
florir.
Depois sonho com sombras
debaixo dum Sol escaldante
abomino as sobras
das sombras estranhas
me envias (in)complacente:
as sombras também são minhas!
Oh!, a chuva matinal
Deus enviou-me a chuva torrencial
sou dono das cargas d´água
e minha amargura desagua
na foz dum rio qualquer
na foz dum rio a entardecer.
Faço de contas a sonhar
que as melodias das ondas do mar
numa praia linda
da ilha da minha Kianda
cantam para mim entusiásticas
melodias eufóricas.
Oh o solo é meu, recebi de herança
é minha a esperança
perdida no chão de riquezas
(riqueza? Que riquezas? Pobrezas!)
é meu o solo rico que galgo
é meu o lamento triste que rogo.
Deus enviou-me o sol também
o Sol é meu
também as sombras
abomino as sobras
que do alto teu céu
me envias arrogante. Turbilhões de
justiça no além!
Abomino os restos
recuso! Protesto meus protestos
as sobras. As sobras das sombras
que tua falsidade me grita
e envia hipócrita:
recuso as sobras!
As sombras. As sobras das sombras!
Luanda, 19 de Maio de 2006.
Décio Bettencourt Mateus
In Gente de Mulher
Thursday, May 23, 2013
O TRUMUNO!
Pés voam descalços
o quente d’areia
trumuno o jogo da bola
que gira e rola
pernas marotas riscam espaços
em bolas apressadas de meia.
o quente d’areia
trumuno o jogo da bola
que gira e rola
pernas marotas riscam espaços
em bolas apressadas de meia.
Correrias em pernas loucas
cololas, cabritos
fintas e trucas
na disputa da bola
na fuga à escola
a garotada feliz aos gritos.
cololas, cabritos
fintas e trucas
na disputa da bola
na fuga à escola
a garotada feliz aos gritos.
em pernas craques
o mundo na garotada
em peitos suados de fora
a escola à espera
o velho em fúrias de porrada.
Nos pés do maestro
mestria no passe ao companheiro
o maestro finta e escova
enfia na ova
do defesa
o maestro finta e chuta p’ra baliza.
mestria no passe ao companheiro
o maestro finta e escova
enfia na ova
do defesa
o maestro finta e chuta p’ra baliza.
Uaaá! Uaaá! Chulipas, quinhões e cabritos
brigas e porradas
cafriques
quedas e truques
acode, acode, é batota, é batota. Apitos,
algazarra na garotada.
brigas e porradas
cafriques
quedas e truques
acode, acode, é batota, é batota. Apitos,
algazarra na garotada.
– Oh!, saudades! Eu nas pernas da garotada
no peito da miudagem
a fazer vadiagem
a correr descalço um campo d’areia;
depois o medo a tareia
eu em medo, o velho e a porrada!
no peito da miudagem
a fazer vadiagem
a correr descalço um campo d’areia;
depois o medo a tareia
eu em medo, o velho e a porrada!
Eu no trumuno do futebol
É golo! Golóóóóóóóóóóóóóóóóóó!
É golo! Golóóóóóóóóóóóóóóóóóó!
Luanda, 05 de Setembro de 2006.
Wednesday, September 05, 2012
MUSEU DA ESCRAVATURA
Na tristeza do meu kissange
o lamento do pensamento
das gentes
que partiram p’ra longe
que partiram p’ra outros horizontes
em cânticos de desencanto.
Nas tuas ondas cansadas
oiço passos antigamente
passos escravos
acorrentados cativos
em liberdade de correntes
passos escravos no lamento tuas ondas.
No longe tua superfície ondulada
cheiro a navios negreiros
dos homens acorrentados
maltratados
na tua superfície azulada
a fumaça dos navios guerreiros:
Ó museu da escravatura
fala-me a história
enterrada na memória dos dias
fala-me os negros escravizados
vendidos
nas noites sofridas de brancura.
Fala-me os rostos transpirados
desgastados
nos homens valentes
arrastados prisioneiros
em navios negreiros
em navios nos aléns fumegantes.
Ó museu da escravatura
impávido viste meus irmãos
fazerem travessia do infinito
em inferno de porões
fala-me esta angústia no peito
esta angústia loucura.
Ó museu da escravatura
ainda sinto no pulsar tuas águas
dor das mágoas
dos meus antepassados
maltratados acorrentados
ainda doem os ossos nas noites de torturas.
Ó museu ingrato fala-me o ranger de dentes
Nos navios perdidos nos horizontes!
Décio Bettencourt Mateus
in Gente de Mulher
Friday, July 13, 2012
GENTE DE MULHER
Lançamento de GENTE DE MULHER, meu mais recente livro de poemas, hoje 13 de Julho de 2012, na sede da União dos Escritores Angolanos, às 18h00. Apresentação por José Luís Mendonça. Estão todos convidados. São todos benvindos.
Friday, June 08, 2012
A ESCALADA
E na escalada da montanha
Tropecei pedregulhos e penhascos
De areias escorregadias
Beijei o fresco da manhã
E a quentura dos dias
Nuns pés cansados e roucos!
Meus joelhos escorregadios
Sangraram dolentes abrupta escalada
Minha boca amuada
Desbaratando caminhos
E espinhos
E jorrando dores fartas de lamúrios!
Respirei ar-poeira beijando a boca
Barro sufocando lábios
De dolentes assobios
E uma voz rouca
Clamando o cimo da montanha
Clamando o fresco da manhã!
Meu corpo dorido num arrasto
Deslizando detritos
Pedregulhos, poeiras e areias
Minha garganta um rosto
Inflamado de gritos
Lamentando a crueldade dos dias!
Lábios inflamados morderam terra dura
Minha seiva regou terra
De montanhas e penhascos e areias
Rebolei precipício abaixo
Gemi baixo
E limpei as feridas no silêncio das aldeias!
Décio Bettencourt Mateus
in Xé Candongueiro!
Luanda, 7 de Agosto de 2007.
Tuesday, May 29, 2012
MEU POEMA ACORDA DORIDO!
À memória de Luzia Bettencourt M.,
minha mãe.
Manhã virgem manhã cedo
meu poema acorda dorido
manhãs frias
vai à igreja vai à missa
em pernas de pressa:
ó Senhor pão às minhas crias.
Meu poema sofre a madrugada
a espreitar a aurora
acarreta água ensonada
enche bidão enche tamborão
de olho na torneira
música sofrida no coração.
Dorme insónias na noite escura
acorda constrangido a praça
a vender gelados
compra esperança
recebe troco ternura
bem diz os kwanzas bem diz trocados.
Caminha um sol abrasador
preocupação no rosto
meu poema tem dor
a rusga a falar serviço militar
a rusga: kwata-kwata miúdos a passear
kwata-kwata miúdos, oh desgosto!
Meu poema desperta alvorecer
lava roupa amontoada no tanque
rebenta mãos de sofrer
vende gelo no Roque
e sofre filho fugidio emigrado
filho mwangolé exilado.
Meu poema dorme cansado
é pai mãe marido mulher...
cuida os miúdos
atende o marido
dorme dorido prazer
dorrme dorido sonho de trocados.
Meu poema dobra joelhos em manhãs frias:
ó Senhor pão às minhas crias!
Décio Bettencourt Mateus
in Gente de Mulher
Luanda, 10 de Agosto de 2006.
minha mãe.
Manhã virgem manhã cedo
meu poema acorda dorido
manhãs frias
vai à igreja vai à missa
em pernas de pressa:
ó Senhor pão às minhas crias.
Meu poema sofre a madrugada
a espreitar a aurora
acarreta água ensonada
enche bidão enche tamborão
de olho na torneira
música sofrida no coração.
Dorme insónias na noite escura
acorda constrangido a praça
a vender gelados
compra esperança
recebe troco ternura
bem diz os kwanzas bem diz trocados.
Caminha um sol abrasador
preocupação no rosto
meu poema tem dor
a rusga a falar serviço militar
a rusga: kwata-kwata miúdos a passear
kwata-kwata miúdos, oh desgosto!
Meu poema desperta alvorecer
lava roupa amontoada no tanque
rebenta mãos de sofrer
vende gelo no Roque
e sofre filho fugidio emigrado
filho mwangolé exilado.
Meu poema dorme cansado
é pai mãe marido mulher...
cuida os miúdos
atende o marido
dorme dorido prazer
dorrme dorido sonho de trocados.
Meu poema dobra joelhos em manhãs frias:
ó Senhor pão às minhas crias!
Décio Bettencourt Mateus
in Gente de Mulher
Luanda, 10 de Agosto de 2006.
Subscribe to:
Posts (Atom)

