Tuesday, October 31, 2006

CARTA DE UM ANGOLANO NO ESTRANGEIRO

Partimos para a pedreira
Bem sabes que não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos,
Partimos para novamente sermos os contratados
E os explorados
Para sermos os sem eira nem beira

Mão de obra barata, partimos
Para construirmos e edificarmos
Com a força dos nossos braços vigorosos
E dos nossos peitos musculosos
Os prédios, as estradas, as pontes...
Em terras alheias, terras distantes

Partimos
Bem sabes que não é isto que queríamos
Tu que sonhaste com doutores e engenheiros
Agora tens-nos carpinteiros e pedreiros
A desenvolver países estrangeiros
Países dos outros

Partimos para sermos espancados
E levarmos bofetadas
Dos cabeças-rapadas
Partimos para sermos desdenhados
E chamados com desprezo, pretos!
Nestes lugares longínquos, lugares incertos

Partimos, mas não queríamos partir
Lá no Menongue queríamos construir
Os hospitais, as escolas, as pontes...
Lá queríamos erguer um arranha-céus
Para então gargalharmos desafiantes
Os brancos europeus
(Mas lá no Menongue, não aqui em Portugal
Que isto nos faz sentir mal)

Partimos
Bem sabes que nos forçaram a partir
Fugimos
Bem sabes que nos nos forçaram a fugir
Mas não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos

O que nós queríamos
O que nós desejávamos
É construir uma ponte
E uma auto-estrada gigante
Que unisse os corações dos angolanos,
É isto que desejamos todos estes anos

Partimos
Mas bem sabes mãe, não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos!


Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"

5 comments:

Nelson Ngungu Rossano said...

Aqui na Tuga bem ouvimos as malambas de quem muito já deu e nada recebeu - a sua terra natal torna-se apenas uma paraíso ídilico...

Namibiano Ferreira said...

Que beleza de poema meu caro amigo poeta. Bem sabes como entendo esta mensagem, gostei e me emocionei, viva a POESIA!
Kandandu, Namibiano

Chá de Lucia Lima said...

"O que nós queríamos
O que nós desejávamos
É construir uma ponte"(...)

Desta forma, pode não unir TODOS os corações, pois há-os de pedra mas, une certamente os mais sensíveis com esta bela poesia..

Kandandu, amigo!

ELCAlmeida said...

Identificado na mensagem e por isso "roubei" e coloquei no Malambas.
Kandandu
Eugénio Almeida

Decio Bettencourt Mateus said...

Eugénio: muito obrigado pela visita à Mulembeira. É um prazer ver poemas de minha autoria no seu blog, que devo dizer gostei muito pela diversidade e qualidade. Suas visitas serão sempre bem vindas

Kandandu