Friday, May 29, 2009

DIFERENCIAÇÕES

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
Alguém ri,
A vida é bela e para ele sorri
Montes de dinheiro são contados
Montes de dinheiro serão depositados

Enquanto isto, lá fora
Gente que dorme ao relento
Gente que não tem tecto
Prepara-se para andar à porrada
Prepara-se para andar à bordoada
Vai haver pancadaria à qualquer altura

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
A alegria é visível,
A cumplicidade é inviolável
Mais um carro de luxo comprado
E mais outro bem (ilicitamente) adquirido

Enquanto isto, lá fora
Há problemas, há makas
Puxam-se facas
Cacos de garrafas em mãos raivosas
Falares de revolta em vozes furiosas
Vai haver pancadaria à qualquer altura

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
Faz-se amor, amor proibido
Amor pecado
Mais uma amante conquistada
Mais uma mulher enganada

Enquanto isto, lá fora
Gente esfomeada às guerras
Gente esfomeada às turras
Turras por um pedaço de pão
Turras pelo espaço na cama-chão
Vai haver pancadaria à qualquer altura!

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
Tudo bem, ri-se à toa
Afinal a vida é boa
O lucro fácil, é fácil de se conseguir
É fácil de se dquirir

Enquanto isto, lá fora
Adolescentes vadios
Descarregam entre si ódios,
Há no ar ameaças de morte
Há gritos por toda parte,
Entretanto a noite é avançada em hora
E vai haver pancadaria à qualquer altura!

Décio Bettencourt Mateus

in "A Fúria do Mar"



10 comments:

Fatima said...

Oi Décio!
Seu texto é tão vivo que as cenas passam pelos nossos olhos.
Lendo seu poema me lembrei de uma música do grupo Titas aqui do Brasil, não sei se vc conhece, vou enviar a letra.
Abrs.

Miséria
Titãs
Composição: Paulo Miklos / Sergio Britto / Arnaldo Antunes

Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Índio, mulato, preto, branco
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Filhos, amigos, amantes, parentes
Riquezas são diferentes
Ninguém sabe falar esperanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Todos sabem usar os dentes

Riquezas são diferentes


Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Riquezas são diferentes
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

Índio, mulato, preto, branco
Filhos, amigos, amantes, parentes
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Cores, raças, castas, crenças
Em qualquer canto miséria
Riquezas são miséria
Em qualquer canto miséria

Decio Bettencourt Mateus said...

Fátima : agradeço sua simpática mensagem, mais uma vez. Não conhecia a letra que você enviou. Obrigado.

Fica bem.

NAMIBIANO FERREIRA said...

Lindo meu mano, lindo e bem no fundo, olhando para a realidade real que este poema nos remete da-nos vontade de nos revoltarmos e tabém andar a porrada por mais e muito mais justica social!!!!
Kandandu, Mano.

Decio Bettencourt Mateus said...

Namibino:
quiça seja isto também que anda a tentar fazer o nosso grito poético: mais justiça social

Obrigado e um kandandu

NAMIBIANO FERREIRA said...

"quiça seja isto também que anda a tentar fazer o nosso grito poético: mais justiça social"




Que seja isso uma grande ajuda para dar voz ao nosso povo, pobre e faminto de pao e justica!!!
Como poetas nao nos podemos calar, nem devemos...
kandandu, mano!

lili laranjo said...

Deixo para ti...


Este foi o meu poema e é muito meu...e dos meninos de S.Tomé...)


MENINOS

Menino de pé descalço e roto...
Menino de cara linda com olhos grandes...
Menino que vive no meio do mato...
Mas menino que tem desejos...
E certamente muitos sonhos...

Tia tem doce?
Tia tem caneta?
Tia tem boné?
Tia tem camisa?

E os olhitos abrem-se...
As mãos entrelaçam-se...
Umas nas outras...
Todos querem...
Chegar primeiro...

Ao doce...
À caneta...
Ao boné...
À camisa...

E eu...
E tu...
E nós...

Não podemos ficar indiferentes...
Não podemos fechar os olhos...
Na desigualdade que há...
Neste mundo tão desigual...


Lili Laranjo
27/2/09 S.Tomé.

lili laranjo said...

Décio vou deixar do meu livro
Salpicos de cá e de lá...


Minino


Minino...
Minino preto...
Minino de rua...
Minino roto...
Minino que brinca...
Na água do charco...
Minino que ás vezes...
Tem fome...
Mas...
Minino que ri...
porque...
Tem beijo...
Tem amor...
Tem...
Pai e Mãe...Ali...
E fica a pensar...
Eu...
Minino preto...
Tem pouco...
Mas...
Tem muito...
Eu "sabe" rir...
Olho...
Ali...
O branco...
Que corre...
Que não pára...
Para ter muito...
Mas...
Que não ri...
Não sabe rir...
E tem...tudo...
Eu...
Minino Preto
Não tenho nada...
Mas tenho tudo...
Fecho os olhos...
E espero "ficà" grande...
Mas quero...
Continuar a rir...
E ter...
O mundo...
Dentro da mão...


Lili Laranjo

Fatima said...

Tem homenagem para vc lá no blog.
Bjs.

Decio Bettencourt Mateus said...

Lili Laranjo,

Obrigado pela visita e pelos poemas de sua autoria. Concerteza que muitos problemas comuns nos afligem, a nós africanos e não só. E concerteza por isso vamos martelando - de forma difetente, evidentemente - em teclas semelhantes.

Um kandandu (abraço)

Decio Bettencourt Mateus said...

Namibiano,

Creio fortemente - e sempre cri - que nos tempos injustiçados da actualidade, a nossa missão é não só produzir coisas belas e agradáveis, todavia passar também o grito sofrido das nossas gentes. Eh a nossa forma de contribuição, enquanto homens de escrita e palavra.

Kandandu mano.