Tuesday, August 24, 2010

A DOR DA POESIA!

Corre os musseques distantes
Entra as kubatas
De lata
Respira o fumo da lenha
E traz o murmúrio das gentes
A batucar o cacimbo da manhã!

Escuta as gentes empobrecidas
E desentendidas em lamúrias
E gritarias
De fome
As gentes esfomeadas
E vivenciadas de vexame!

Senta-se nas tabernas barulhentas
E fedorentas
Vozes pastosas de bebedeiras
Sanzaleiras
Vozes embriagadas
A cambalearem as estradas!

Grita o lamento dos matos
O olhar cansado das distâncias
A lenha nos lombos
O cansaço aos tombos
Na dor dos dias
E umas mãos a sorrirem maus-tratos!

Traz a algazarra dos musseques atrasados
Peitos furiosos sem camisa
O ciúme
A porrada em casa
A fome
Na violência dos musseques abandonados!

Escreve a voz das gentes analfabetas
Nas ruelas das kubatas
As gentes sofridas da hipocrisia
Dum discurso polido
E armadilhado

E ao pôr-do-sol cantará seu mistério: poesia!


Décio Bettencourt Mateus

in Xé Candongueiro!

kubata: casa pobre feita de lata, por exemplo.
musseque: bairros pobres
cacimbo: estação fria

Paris, 28 de Março de 2007.

10 comments:

Maria Luisa Adães said...

O encontrei e vim procurar sua poesia e gostei!

Sentida e sofrida
por um povo
sem guarida
uma vida...

Eu sou de Lisboa,
escrevo poesia
e não o conhecia.

Obrigada pela beleza das palavras.

Maria Luísa

Decio Bettencourt Mateus said...

Maria Luisa: sua mensagem de saudação deveras poética, deveras me encantou; pelo agradeço. E me encanto.

Mulembeira se alegrará sempre com suas visitas. Bem-vinda.

Kandandu.

Maria Luisa Adães said...

Decio

O encontrei no meu poema e gostei.

A sua poesia, neste recanto é
regionalista.

Descreve com o amor de seu canto,
tudo quanto viu
tudo quanto sofreu
tudo em que acreditou.

E eu acredito que continue a lutar
por essa áfrica com um fascínio
que se agarra a nossos corações
e não mais a esquecemos.

E nesse continente rico e belo
se abasteceram caravelas,
com gente boa e gente má
e levaram esse povo
além dos mares
para outros lugares.

Meu amigo, a sua poesia nos conta,

Todo o mal e traição
ancestral.

Maria Luísa

p.s. deixou seu nome nos meus seguidores? Seria uma honra se o fizésse!

Decio Bettencourt Mateus said...

Maria Luisa: obrigado pela simpática visita. E mensagem/poema.

Concerteza que com muito gosto adicionar-me-ei à lista dos seus observadores (confesso não gostar muito da palavra seguidor). Obrigado pelo convite.

Kandandu.

Maria Luisa Adães said...

O tornei a encontrar no meu poema "Esquecida" e me senti,
"Menos Esquecida"...

Gosta mais da palavra "Observadores"
Não gosta da palavra "seguidores".

Eu também sinto,
nessa palavra fria
que nada tem
de poesia!

Vou ficar com ela para mim. Posso?

Beijos e obrigada,

Mª. Luísa

OutrosEncantos said...

Encontrei-te na Maria Luisa e gostei muito do teu comentário, por isso aqui estou.
Gostei da tua poesia, por isso tomei a liberdade de ficar.
Espero por ti no meu canto, se te apetecer, é claro.
Abraço!

http://seda7selvagem.blogspot.com

AFRICA EM POESIA said...

Amigo
LInda kubata...



...............


Cubata


Cubata...
Vermelha...
De adobos...
Coberta de capim...
Capim seco...

Cubata...
Uma, duas...
E mil...
E aí...
A sanzala...

Sanzala...
Cheia de cubatas...
Com gente...
Com gemidos...
Com muitos ais...

E com muitas crianças...
Descalças e sujas...
Mas com olhos...
Grandes e doces...

Olhar sem maldade...
Olhar com esperança...
Esperança no novo dia...


E ao som do batuque...
Com a mandioca...
A fuba e o pirão...
A criança foi crescendo...

E hoje é homem...
E olha para trás...
E sente e sabe...
Que foi bom...
Ter tido...esperança!...


Lili Laranjo

Decio Bettencourt Mateus said...

Maria Luisa: com agrado que sim.

Saudações.

Decio Bettencourt Mateus said...

OutrosEncantos (andei rapidamente a procura do teu nome no teu blog mas não encontrei): feliz com a tua visita e feliz por teres gostado da leitura feita em Mulembeira. Vou sim visitar-te outras mais vezes mais calmas.

Mulembeira aguardará por ti mais vezes.

Decio Bettencourt Mateus said...

Amiga Lili: lindo poema este aqui deixado, em uma pincelada que ajuda a alargar a visão sobre a temática em análise.

Obrigado.