Monday, November 26, 2007

A ZUNGUEIRA

O miúdo nas costas, faminto
O sol queimando
O sol assando
O miúdo nas costas, faminto de alimento
As moscas acariciando-o
E o lixo distraindo-o!

A zungueira zunga, cansada
Na cabeça, o negócio e o sustento
E nos pés empoeirados
O cansaço dos quilómetros galgados
O cansaço da distância percorrida
A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto!

A zungueira zunga, cansada
E vai gritando e berrando a plenos pulmões:
Arreou, arreou, arreou nos limões...
A zungueira zunga, empoeirada
E arreia o negócio, arreia o preço e faz desconto
Arreia o preço do sustento

O miúdo nas costas faminto
A lombriga na barriga rói, a lombriga pede
O miúdo nas costas, faminto de alimento
Chora e berra
Não é birra
É a fome que aperta, é a fome da sede!

A zungueira zunga, apressada
E arreia o negócio, arreia o preço:
Arreou, arreou, arreou no chouriço...
A zungueira zunga empoeirada
E arreia o preço do negócio
Arreia o preço da mercadoria, coisas do ofício

Depois, a viatura da fiscalização
Os travões chiam, as marcas dos pneus no asfalto
E os homens arrogantes a perseguirem
E a baterem
E a zungueira a fugir, e o negócio e o sustento
Caídos, espalhados no chão!

Depois vem o fiscal, também faminto,
“Você tem autorização?
Acompanha, isso é transgressão!”
A zungueira implora e mostra a fome:
Tem dois dias o miúdo não come
A lombriga na barriga precisa alimento!

O fiscal, também faminto
Arreia o lucro da zungueira cansada
E desesperada
Arreia o lucro, senão a zungueira vai presa
Senão a zungueira não volta a casa
E a zungueira cede, com medo no pensamento

Depois a zungueira chega a casa
De bolsos vazios, mas alívio no coração
E grata, afinal não foi presa
Afinal não foi à prisão
A zungueira chega a casa, o miúdo faminto
O miúdo sedento de alimento

Mas amanhã, a zungueira voltará a berrar
Amanhã a zungueira voltará a arrear:

Arreou, arreou, arreou em qualquer coisa…


Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"

Zungueira: Mulher vendedora que deambula pelas ruas
Zungar: Deambular pelas ruas
Arreou, arreou (...): Em jeito de cântico, as mulheres anunciam a baixa dos preços

10 comments:

Anonymous said...

Boa tarde Sr Décio,

ja estava com saudades de um poeminha novo,este retrata bem a realidade destas mulheres angolanas.
Admiremos e respeitemos estas "bravas guerreiras" que desde o raiar do sol estão nesta selva,andando de uma ponta da cidade à outra,lutando pela sua sobrevivência.


Rosa Muhongo.

Decio Bettencourt Mateus said...

R. Muhongo: suas visitas e palavras são sempre encorajadoras. Obrigado.
De facto, penso ser parte da minha missão trazer à superfície as vivências sofridas das nossas gentes.

Décio Bettencourt Mateus

ANNA MATHAYA said...

Décio
passam-se já 14 dias do novo ano, ainda assim deixo aqui meu desejo pra você: ATITUDE e OUSADIA!

NAMIBIANO FERREIRA said...

Este poema traz-me a lembranca (mutadis mutandis) o tempo colonial... quando as autoridades perseguiam quem nao tinha licencas de venda e muitas vezes tendo-as nao queriam vendedoures em determinados lugares... lindo poema!!

Rosa Muhongo said...

So para dizer:
É sempre um prazer passar por aqui.

Decio Bettencourt Mateus said...

Namibiano: tuas visitas sao sempre benvindas e alentadores teus comentarios.

Kandandu

Decio Bettencourt Mateus said...

A. Mathaya: es sempre benvinda! Obrigado pelos cumprimentos de ano novo. De facto Atitude e Oudadia sao espinhosas estradas de muitos bons conseguimentos. Gostei. Obrigado. O teu "Dont Give Up" eh sempre agradavel de se vistitar.

Kandandu

ANNA MATHAYA said...

Qu temos para 2008??? aguardando!!

Decio Bettencourt Mateus said...

A. Mathaya: Confesso que quase te devolvo a pergunta: Sera que 2008 vera nascer a tua talentosa pena em forma de livro? Teus escritos clamam sem cessar por isso! Estou em fase de acabamento de um novo projecto, a ver vamos se brotara em 2008.

Decio Bettencourt

Rosita de Palma said...

Apenas passei!
Bom dia, bom março e que venha mais uma obra em 2008.