Sunday, November 08, 2009

E OS HOMENS DA TERRA...

E os homens da terra
Sentaram-se! Frutos silvestres
Emprestaram sabedoria e sombra
Poeiras campestres
Abençoaram papeladas
E acordos nos matos das picadas!

Um vento a soprar agreste
As terras do leste
Falou-me d’homens sentados
Em troncos e pedras
A falarem acordos e palavras
E obuses de canhões silenciados!

A taça do sangue das armas
Entornou-se! Batuques e lágrimas
Das gentes magricelas
A espreitar homens da terra
Sentados, a falarem paz em palavra
E sonhos e acordos d’estrelas!

A tumba dos homens apagados
Em camuflados e botas
Aplaudiram palmas
Kazumbis e almas
Dançaram alegria nas matas
E homens sentaram pedras d’acordos!

E as patentes da terra
Conversaram! Calaram-se ruídos
E fuzis d’homens fardados
A barulhar palavras e guerras
Conversam os homens nas pedras
E nos troncos dos acordos!

E os homens da terra conversaram!


Décio Bettencourt Mateus.

Luanda, 26 de Novembro de 2007.

in "Xé Candongueiro"

22 comments:

NAMIBIANO FERREIRA said...

Especial este poema... muito bem construido. Este verso está sublime, Poeta! "A taça do sangue das armas" tanto sentido neste pequeno verso!!
E para terminar com chave de ouro: "E os homens da terra conversaram!"
Parabéns, mano Decio!!!
Kandandu

Fatima said...

Emocionante!
Como é triste a guerra e suas consequências. E os frutos da mentira.
Estava com saudades de vc!
Bjs.

Rosita de Palma said...

Poema lindo Sr Décio, apesar de triste.

"E os homens da terra conversaram!
"

Vamos ver se a conversa melhora algumas coisas!

Kandandu!

nina rizzi said...

gosto especialmente deste poema:
me alargo, sangro, eu-terra.

um beijo.

Decio Bettencourt Mateus said...

Obrigado mano Namibiano. Pois é, "A taça do sangue das armas
Entornou-se!", e "Os homens da terra conversaram!".

Kandandu

Decio Bettencourt Mateus said...

De facto Fatima, concordo contigo, é triste a guerra. Por isso o poeta canta aqui a assinatura dos acordos que ditaram o fim da guerra em Angola.

Um kandandu e volte sempre á Mulembeira.

Decio Bettencourt Mateus said...

R de Palma, o silêncio das armas já é um grande ganho e uma grande melhoria. Vamos continuar a lutar por mais melhorias.

Kandandu e obrigado pela visita.

Decio Bettencourt Mateus said...

(Me)nina: Obrigado. Acho que que também o poeta sangrou um pouquinho. Mulembeira se alegra com as tuas visitas.

Kandandu.

Moacy Cirne said...

Mulembeirangola
no Balaio de hoje.

Kandandu/abraço.

romério rômulo said...

os homens da terra são os homens,
décio.
um abraço.
romério

NAMIBIANO FERREIRA said...

Mano, tem surpresa para ti no blogue "Para Nunca Mais a Guerra.
Kandandu

Decio Bettencourt Mateus said...

Romério, poeta mesmo no comentar! Tem mesmo razão, os homens da terra são os homens. Gostei. Obrigado. Suas visitas são lijonza.

Meg said...

Caro Décio,

Não imaginas o quanto este poema me toca!
Recuei a um tempo que não quero recordar... estou emocionada.
E fico-me por aqui, com as tuas palavras a martelarem-me a cabeça e o coração.

Um abraço

Decio Bettencourt Mateus said...

Meg amiga: o pior - a longa guerra - já lá vai, felizmente. Agora outros não menos sérios e importantes problemas pela frente. E é o que o poeta tenta cantar, o momento que sentenciou o fim da mortandade. Bem mas não te quero triste amiga.

Kandandu

Pedrita said...

gostei muito do poema. gosto muito de poemas que misturam natureza. beijos, pedrita

Decio Bettencourt Mateus said...

Pedrita, obrigado por ter vindo. É muito benvinda.

Kandandu.

Cgurgel said...

retribuindo tua visita, poeta:
tua poesia vasculha uma luz. aquela que fala da vontade de viver e de nunca cerrar os olhos para a mentira e opressão.
abração
Cgurgel

Decio Bettencourt Mateus said...

Cgurgel, sua visita é bem acolhida. Obrigado pelos comentários.

Moacy Cirne said...

Oi,
quando teremos, aqui, um novo poema seu?

Kandandu/abraço.

Decio Bettencourt Mateus said...

Moacy: gostei da sua provocação, eh, eh, eh...

Breve, muito breve Mulembeira trará outra novidade de "Xé Candongueiro".

Kandandu.

romério rômulo said...

décio:
obrigado pelo link.
um abraço.
romério

Meg said...

Décio,

Subscrevoa pergunta do Moacy!
Quando?

Um abraço amigo