Tuesday, October 06, 2009

UM HOMEM NUM McDonald’s!

Um homem das áfricas longínquas
Num McDonald’s das europas
A tremer o frio nas roupas
A esconder as mágoas
E miséria das terras ricas
E sofridas das áfricas!

Senta-se faminto num canto
O cansaço da África
A desilusão da Europa branca
No rosto esfomeado
Senta-se ao meu lado
A dor d’África no pensamento!

Traz a fome dos dias a roer
O homem num McDonald’s das europas distantes
A África e suas gentes
A roer, a moer
E um homem senta-se perdido nas europas
A tremer o frio nas roupas!

A África atrasada, distante
A poeira e gritaria de desentendimentos
Dos homens arrogantes
Europa, o paraíso, fica num além
Dissipado numa nuvem
E o “um homem” senta-se nos seus pensamentos!

E parte perdido na ilusão das europas brancas
A vergonha das áfricas ignorantes
E suas gentes
A barriga de fome a roer
A vergonha a doer
E um homem parte na desilusão das áfricas!

Décio Bettencourt Mateus

in "Xé Candongueiro"

18 comments:

NAMIBIANO FERREIRA said...

Um homem das áfricas e que nem gosta de McDonald's food e ás vezes escreve poesia pensando sempre na sua terra e no povo que tanto canta... nao te elogio o poema, mano, porque me faltam palavras... vou ser trivial: BONITO POEMA, MEU MANO, BONITO MESMO!!!
kandandu

Fatima said...

Tão bonito que emociona a gente!
Não fica tanto tempo sem publicar. Sinto a sua falta.
Bjs.

Moacy Cirne said...

Um poema
das áfricas amadas,
inclusive por brasileiros
de terras longínquas.
Um belo poema,
antes de tudo.
Kandandu/abraço.

Decio Bettencourt Mateus said...

Namibiano: é (também) de elogios que se alimenta e envaidece a alma criadora poeta. Por isso muito te agradeço e me alegro.

Decio Bettencourt Mateus said...

Fátima: uma presença agradavelmente habitual em "Mulembeira". Prometo não ficar tanto tempo sem publicar.
Obrigado.

Decio Bettencourt Mateus said...

Moacy: Há cerca de quinze dias estive no Rio e Salvador (pela primeira no Brazil). Em Salvador senti o famoso reencontro com as nossas gentes que foram deportadas para o Brazil. Amei.

Concerteza que sim, também os brasileiros em terras longínquas se podem rever em "Um Homem num McDonal's!"

Moacy Cirne said...

Meu caro,
que pena que não nos encontramos no Rio (de qualquer modo, no momento encontro-me em Natal, ao norte da Bahia).
O Balaio de hoje é dedicado à poesia de Angola. Há um poema seu.
Kandandu/abraço.

Meg said...

Décio,

E que saudades eu tenho das "minhas" Áfricas... e dos teus poemas.
Num país com tanta gente sem trabalho, não tenho o direito de me queixar de excesso de trabalho, mas é verdade... por isso tenho andado afastada. mas não esqueço os amigos.
Dizer-te que gostei MUITO do teu poema não é uma novidade para ti, tenho a certeza.
E não nos deixes sem a tua poesia.

Um abraço

Decio Bettencourt Mateus said...

Meg amiga: já vinha reclamando a tua (longa) ausência. Coragem amiga; pensares que deves aguentar o excesso de trabalhar por haver muita gente sem trabalhar, é uma faceta positiva de um problema.

Obrigado pela vistita e pelas palas palavras amáveis e encorajantes. Prometo poesia, especialmente porque o meu novo livro "Xé Candongueiro" já está pronto.

Kandandu

nina rizzi said...

eu adoro este texto, já alardeei por aí.

sabe que eu gostava de me chamar de luanda. e gostava de fazer poemas assim. ainda bem que hoje me bastou re-lê-lo.

beijo.

Decio Bettencourt Mateus said...

Nina, obrigado pela visita e palavras amáveis. Na verdade sou eu quem reclamo admiração pela sua poesia! Cativa-me a originalidade, simplicidade e profundidade dos seus textos.

Um kandandu (abraço).

romério rômulo said...

décio:
meu livro mais recente é ilustrado
com elementos da iconografia africana.nossa mãe áfrica tem uma força sem limites.
te deixo um grande abraço.
romério

Decio Bettencourt Mateus said...

Romério: sua visita e comentário são motivo de lisonja bastante. É muito bem vindo à Mulembeira. E igualmente bom saber das referências à mãe Àfrica.
Sendo um pouco difícil adquirir seu novo livro, vou acompanhar através do seu blog e/ou outros. Obrigado.

Um kandandu (abraço)

Rosita de Palma said...

Bom dia Sr Décio,

Ja vi que o livro Xé Candongueiro vai "bater".

Aguardamos ansiosamente a publicação.

Kandandu!

Decio Bettencourt Mateus said...

R de Palma: "Xé Candongueiro" deverá ser lançado em Dezembro ou Janeiro. Bem vamos lá ver se vai "bater", aí a palavra será dos leitores...

Kandandu de bom fim de semana.

NAMIBIANO FERREIRA said...

Sim, queremos muitos poemas e muitos livros. Porque nós gostamos de te ler, meu mano.
Tem surpresa em Cores e Palavras

Kandandu

Ana Arlete said...

Um dos meus favoritos poemas deste livro.
A realidade de muitos Africanos no estrangeiro e muito dolorosa...eu admiro o talento do meu irmao, de capturar tao bem esta realidade.
Continua o excelente trabalho mano!!
Kisses

Decio Bettencourt Mateus said...

Ana Arlete: obrigado por vires. Obrigado por teus simpáticos e encorajadores comentários. Confesso-te também um fraco por este poema.

Walk tall mana!